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domingo, 3 de abril de 2016

Batismo com fogo?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Como entender a expressão “Ele (Jesus) vos batizará com Espírito Santo e com fogo” nos textos de Mateus 3. 11-12 e Lucas 3. 15-17? Será que o batismo no Espírito Santo tem um aspecto purificador (santificador) do homem já regenerado ou esse fogo é simplesmente escatológico e, portanto, indica o juízo futuro sobre o ímpio?

Como aprendemos no último Batman versus Superman, a ignorância não é sinônimo de inocência. Muitos especialistas em detratar o pentecostalismo, mesmo sem nunca tê-lo estudado a partir das suas fontes teológicas, dizem por aí que a primeira interpretação é consenso entre os pentecostais (e somente entre eles). Não é bem assim. A questão é bem mais complexa do que esse preconceito rasteiro costuma admitir. Em primeiro lugar, não há consenso entre os exegetas sobre a interpretação correta do texto em apreço. Em segundo lugar, nem mesmo entre os próprios pentecostais há unanimidade sobre a interpretação mais adequada.

Vejamos os pontos de vistas divergentes entre os intérpretes e comentaristas, sejam eles pentecostais ou não.

1ª opção: “O batismo com fogo é o aspecto purificante e esplêndido do batismo no Espírito”

Assim é o entendimento do exegeta pentecostal canadense French L. Arrington, por exemplo, onde ele faz uma relação de uma continuidade temática em Lucas entre “batismo com fogo” (Lucas 3.16) e “línguas de fogo” (Atos 1.5; cf. 2. 1-4)[1]. O fogo, portanto, antes de indicar o juízo seria a própria representação da glória divina. Daí que podemos destacar o batismo efetuado por Jesus como superior ao ministrado por João Batista. O primeiro como expressão do arrependimento e o segundo indicando a própria plenitude de uma vivência com o Deus vivo tanto no Espírito como no fogo da glória divina.

A questão é: a quem João Batista se dirige nesse discurso? Se o foco é a própria comunidade de crentes a menção ao fogo não seria mais litúrgica do que escatológica? O fogo no Antigo Testamento muitas vezes indica juízo, mas quase sempre aponta para a purificação (cf. Números 31.23; Isaías 6.6; Êxodo 29.34 etc.). Já no contexto litúrgico o fogo remete à ideia da presença divina (cf. Levítico 6.12) que, naturalmente, leva o homem à santidade. A presença de Yahweh acompanhava a comunidade de Israel no deserto como uma “coluna de fogo” (Êxodo 13.21, 22; 14.24), ou seja, não indicando juízo, mas sinalizando a presença e a proteção do Senhor. Os eleitos também tinham relações de experiência com o “fogo” não no sentido de juízo aos impenitentes, mas de depuração da vida diante do Santo de Israel. O fogo simbolizava, inclusive, o beneplácito de Deus diante do sacrifício que Lhe agradava (Gênesis 15.7; Levítico 9.24; Juízes 6.21; 1 Reis 18.38). Em o Novo Testamento o fogo igualmente indica a glória de Cristo (cf. Apocalipse 1.14; 2.18).

D. A. Carson chama a atenção para a expressão grega βαπτίσει ἐν Πνεύματι Ἁγίῳ καὶ πυρί (Mateus 3.11) onde a preposição ἐν (com) não aparece antes da palavra πυρί (fogo). Logo, a palavra com que liga dois elementos de uma frase, estabelecendo uma relação entre eles, está apenas após “do Espírito”, indicando assim a natureza dupla de um único batismo. Sem uma segunda preposição a tradução poderia ser: “batismo no Espírito, ou seja, fogo”. Carson comenta: “O batismo de água de João relaciona-se com arrependimento; mas aquele de quem ele prepara o caminho administra o batismo de Espírito-fogo que purifica e refina a pessoa”[2]. Ou ainda como escreveu Leon Morris: “Parece melhor entender que João está pensando nos aspectos positivos e negativos da mensagem do Messias. Os que O aceitam serão purificados como pelo fogo e fortalecidos pelo Espírito Santo”.[3]

Interpretes já no século XIX apontavam nessa direção. Exemplo é o exegeta inglês Henry Alford (1810-1871). Ele via esse batismo como único em uma dupla função e achava um erro básico separar o público destinatário de cada elemento (Espírito e fogo) se o texto em grego assim não o faz. Alford dizia que essa promessa foi plenamente cumprida no Dia de Pentecostes (Greek Testament Critical Exegetical Commentary). Entre outros exegetas antigos que concordaram com essa posição temos nomes como de George Campbell Morgan (1863-1945) e Philip Arthur Micklem (1876–1965)[4].

2ª opção: “O batismo de fogo é uma metáfora escatológica que indica o juízo vindouro sobre os ímpios”

Orígenes de Alexandria (185-254) já defendia essa interpretação nos primórdios do cristianismo. E assim se repete na maior parte dos comentários, sejam eles devocionais ou exegéticos. Não seria exagero afirmar que 80% dos comentários ou mais seguem a interpretação do fogo como juízo. O ponto alto dessa interpretação é justamente o contexto (cf. Mateus 3.12; Lucas 3.17).

Há pentecostais que seguem essa linha? Sim, ninguém menos que Stanley M. Horton, o maior teólogo assembleiano do pós-guerra, assim pensava e defendia. Em um longo comentário Horton rebate cada ponto exposto acima como a associação do “batismo de fogo” com “língua de fogo” ou sobre a falta de preposição antes da expressão como indicador de um único batismo. Para Horton “quando Jesus fala sobre fogo refere-se ao do juízo ou da destruição, especialmente o Inferno”[5]. Outro teólogo pentecostal que concorda com Stanley M. Horton é James B. Shelton: “O foco da mensagem de João Batista para os impenitentes é o batismo de julgamento, e para os arrependidos, o batismo de arrependimento”[6].

E é bem verdade que na maioria das vezes quando a palavra fogo é mencionada em o Novo Testamento há a ideia de juízo embutida (cf. Mateus 7.19; 13.40; Lucas 9.54; 17.29; João 15.6; 1 Coríntios 3. 13, 15; Hebreus 10.27; 12.29; Tiago 5.3; 2 Pedro 3.7; Apocalipse 8.7; 9.17; 11.5). Além disso, os textos de Mateus 3. 11-12 e Lucas 3. 15-17 não apresentam conotação litúrgica ou sacramental, mas preditiva. O fogo como elemento litúrgico está tão somente associado ao altar e, nesse ponto, essa figura perde sentido como elemento do culto neotestamentário.

Não é possível afirmar que o auditório de João Batista fosse constituído apenas de crentes (cf. Mateus 3.7). A mensagem de juízo fazia todo o sentido para uma “raça de víboras” que ouvia João na busca de implicá-lo em um crime. O contexto como um todo aponta para a ideia de juízo dos fariseus e saduceus. A mensagem de João, assim como de Jesus, sempre foi muito dura para essa classe de religiosos.

Então por que João Batista coloca na mesma frase uma promessa que se concretiza na festa de Pentecostes (cf. Atos 1.5; 2.1-4) e uma sentença de juízo que se realizará apenas no final dos tempos? Stanley Horton responde que João Batista fazia parte do profetismo veterotestamentário onde “não foi relevado o intervelo entre a primeira e a segunda vinda de Cristo”[7].  Assim como a profecia de Joel no Antigo Testamento relacionava o derramamento do Espírito e o juízo sobre o mundo (cf. Joel 2, 28-32) e os discípulos relacionaram a promessa do derramamento do Espírito ao fim dos tempos (cf. Atos 1. 1-14), João não discernia entre os intervalos do Dia do Senhor.

Outro ponto importante: relacionar a ideia de purificação com o Batismo no Espírito Santo, que é um dom de poder testemunhal, cria mais problemas do que soluções exegéticas para a própria teologia pentecostal. É bom lembrar que a teologia assembleiana rejeita a ideia wesleyana de “segunda obra da graça” onde a santificação é vista como definitiva. Os wesleyanos afirmam que “ninguém tem sido santificado gradualmente”. Os pentecostais assembleianos desde a década de 1960 reafirmam a crença na santidade progressiva segunda a perspectiva reformada[8]. E, na teologia assembleiana, o Batismo no Espírito Santo não é santificador[9]. Ou como escreveu William e Robert Menzies: “O batismo no Espírito não pode servir como emblema de santidade, marca de maturidade cristã. Em vez disso, deve ser visto de acordo com o propósito que Lucas afirma que de ser: a fonte de intrepidez e poder em nosso serviço e testemunho. Não deve ser confundido com a maturidade cristã”[10]. E Robert P. Menzies complementa: “Nós procuramos em vão por uma referência sobre o derramar messiânico do Espírito que purifica e transforma moralmente o indivíduo”[11].

Associar o “batismo de fogo” com “línguas de fogo”, como faz alguns exegetas, é bem problemático. Como lembra o teólogo pentecostal Anthony D. Palma: “precisamos perceber; no entanto, que o vento e o fogo precederam o enchimento do Espírito; não foram parte dele”[12]. Ou ainda, as línguas de fogo foram uma imagem associada unicamente ao evento do Pentecostes sem uma ligação de continuidade entre outras manifestações do Espírito no decorrer do livro de Atos.

Conclusão

Diferente de alguns teólogos que vivem de polêmicas e tratam opiniões contrárias com gracejos vemos que, em matéria exegética, muitas vezes há mais complexidade do que simplicidade diante de textos difíceis das Escrituras. Outrossim, o pentecostalismo é complexo e não é unânime nessa questão, como já visto acima, e indica que associar uma interpretação ao nosso grupo só demonstra ignorância. Eu, apesar dos bons argumentos do primeiro grupo, concordo com Stanley Horton e a maioria dos exegetas: o “batismo de fogo” é o juízo escatológico do Senhor.





[1] ARRINGTON, French L . Lucas. Em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger (Ed). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 335.
[2]    CARSON, Donald Arthur. O Comentário de Mateus. 1 ed. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. p 135.
[3]    MORRIS, Leon. Lucas: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983. p 94.
[4]  Um resumo da posição desses autores pode ser visto em: EARLE, Ralph; SANNER, A. Elwood; CHILDERS, Charles L. Comentário Bíblico Beacon: Mateus a Lucas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 42.
[5] HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo: no Antigo e Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1993. p 97.
[6] SHELTON, James B. Mateus. Em: ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger (Ed). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 26.
[7] HORTON, Stanley M. Idem. p 94.
[8]  HORTON, Stanley M. Santidade: A Perspectiva Pentecostal. Em: GUNDRY, Stanley. Cinco Perspectivas sobre a Santificação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 125-140.
[9]  SILVA, Antonio Gilberto da. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 60. Teólogos assembleianos como Stanley Horton, Antonio Gilberto, Robert Menzies e William Menzies criticam a associação entre santidade e Batismo no Espírito Santo. Uma exceção é Donald Stamps, escritor da popular Bíblia de Estudo Pentecostal, que era de origem da Igreja do Nazareno, portanto, wesleyano.  Veja: STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p 1629.
[10]  MENZIES, Robert e MENZIES, William. No Poder do Espírito. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2002. p 254.
[11]  MENZIES, Robert. Empowered for Witness. 1 ed. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1994. p 128.
[12]  PALMA, Anthony D. O Batismo no Espírito Santo e com Fogo. 4 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 58. Lembrando que a obra de Palma em inglês possui como título apenas a expressão Baptism in the Holy Spirit.

4 comentários:

Mirian disse...

Olá Gutierres,

Primeiramente, acredito que, o batismo com fogo consiste em uma essência de um único batismo no Espírito Santo. O evento de Atos 19.1-6 em uma conjectura minha, fica claro que em virtude do batismo em Nome do Senhor Jesus, houve um derramamento do Espírito Santo em cristãos de Éfeso, e esses, começaram a falar em línguas. Desse modo, concordo em partes com a citação: “Já no contexto litúrgico o fogo remete à ideia da presença divina (cf. Levítico 6.12) que, naturalmente, leva o homem à santidade.”. Os versículos supracitados evidenciam a presença divina, mas discordo sobre “naturalmente” conduz a santidade, pois segundo o Evangelho de João 17.17 (sf. Ez 36.23, 2 Co 3.18, 2 Ts 2.13), Jesus intercede que o Pai nos santifique pela Sua Palavra.

Em continuação: “os textos de Mateus 3. 11-12 e Lucas 3. 15-17 não apresentam conotação litúrgica ou sacramental, mas preditiva(...) O contexto como um todo aponta para a ideia de juízo dos fariseus e saduceus.” A palha não tem consistência, mas é fraca; e não resiste a força do fogo. O vento a leva com facilidade (Sl 1.4, Os 13.3, Ef 4.14) e não tem como se misturar com o trigo (Jr 23.28). Isto é, são os crentes inconstantes na fé levados de um lado para o outro por meio de vãs filosofias. Creio que os textos de Mateus e Lucas apontam para o juízo de Deus em relação aos maus servos, ímpios; porém ao ler outras passagens das Escrituras, fica claro que não se trata apenas de juízo “mas sinalizando a presença e a proteção do Senhor.”.

E como considerações finais, tenho para mim que o fogo presente no batismo difere do fogo de juízo. Logo, atentemos para Filipenses 3.15.

Rudiney Patrocinio disse...

Fui ensinado que o batismo com fogo é para a purificação e santificação do cristão, e que esse batismo queima os impulsos da velha natureza.

Quando passei a estudar o assunto fiquei na dúvida.
Somente João fala desse batismo com fogo, por que ninguém mais falou? O próprio Jesus ao falar do batismo com Espírito Santo não cita o ‘fogo’, segundo o relato de Lucas (At. 1:5).
Na época havia encontrado uma revista da EBD (CPAD), que defendia a interpretação do batismo com fogo como um elemento purificador na vida de quem recebe o batismo com Espírito Santo. Mas as explicações não foram convincentes (pelo menos para mim).

Obrigado pela postagem!
Gosto muito das suas postagens. Sempre equilibrado, respeitador, e preocupado em defender o texto bíblico e não os dogmas denominacional.

Que o Senhor continue te abençoando!

Unknown disse...

A língua no livro d Atos foram como que de fogo e não como de fogo,portantano quem escreveu quis comparar o que tinha visto como algo parecido com fogo e não de fogo.

Unknown disse...

A língua no livro d Atos foram como que de fogo e não como de fogo,portantano quem escreveu quis comparar o que tinha visto como algo parecido com fogo e não de fogo.