Pesquisar este blog

Carregando...

segunda-feira, 9 de maio de 2016

É a Assembleia de Deus wesleyana?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

(A) santificação não é concluída num único momento; já o pecado de cujo domínio fomos libertados pela cruz e pela morte de Cristo, é enfraquecido, cada vez mais, pelas perdas diárias, e o homem interior é, dia a dia, mais e mais renovado, enquanto levamos conosco, em nossos corpos, a morte de Cristo e, dessa forma, o homem exterior vai perecendo. - Jacó Armínio [1]

Há um redescobrimento do arminianismo entre os assembleianos. Tal fenômeno é interessante sobre diversos aspectos: a) solidifica a identidade; b) expulsa o perigoso semipelagianismo; c) amadurece a discussão soteriológica e d) permite uma volta à ênfase na salvação como norte da pregação pública e do ensino privado. Porém, alguns desconhecendo a própria dinâmica doutrinária da denominação têm comprado o pacote completo dos autores arminianos mais populares, especialmente metodistas, e acabam abraçando o wesleyanismo.

O wesleyanismo não é nenhuma doutrina nociva ou algo do tipo, mas é contraditório assembleianos buscarem consolidação da identidade soteriológica ao englobar o pacote wesleyano junto ao arminiano. É claro que a Assembleia de Deus é arminiana, mas não wesleyana. Isso é apenas uma constatação histórica. Ora, pergunte a qualquer aluno veterano de Escola Dominical das Assembleias de Deus se é possível um crente alcançar a perfeição nesta vida e a resposta será - articulada ou não - em torno da crença na santificação progressiva.

Há cinco décadas as Assembleias de Deus claramente romperam com a tradição de Wesley. É bom lembrar que a teologia assembleiana rejeita a ideia wesleyana de “segunda obra da graça” onde a santificação é vista como definitiva. O teólogo assembleiano Timothy P. Jenney afirma: “Não há uma segunda obra específica da graça, conforme querem alguns”[2]. Os wesleyanos afirmam que “ninguém tem sido santificado gradualmente”. Os pentecostais assembleianos desde a década de 1960 reafirmam a crença na santidade progressiva segundo a perspectiva luterana/reformada.

Exemplos não faltam. No livro Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé os teólogos Stanley Horton e William Menzies comentam os 16 pontos da Declaração de Verdades Fundamentais produzida pelo Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos e afirmam categoricamente: “A Bíblia mostra que a santificação é posicional e instantânea, mas é também prática e progressiva”[3]. O brasileiro Antonio Gilberto concorda: “De acordo com a Bíblia, a santificação do crente é tríplice: posicional, progressiva e futura” [4]. Em outra obra Gilberto escreve:

Quando o indivíduo expressa a verdadeira fé em Jesus como Salvador e nasce de novo do Espírito não significa que ele seja imediatamente perfeito. O processo operado nele começa a partir da natureza semelhante a Cristo. Isto ocorre quando o Espírito Santo, pela Palavra de Deus, começa a aparar as atitudes e comportamentos que não são iguais a Cristo. O cristão mostra progressivamente mais sinais de frutificação na vida espiritual, semelhante ao ramo que mostra progressivamente sinais de frutificação muito antes de o fruto atingir um estado maduro. A poda espiritual desenvolve maior evidência da natureza de Cristo, levando o crente à maturidade espiritual. [5]

Jenney também observa:

A diferença fundamental entre um cristão e um não-cristão não está no estilo de vida, na atitude ou mesmo no sistema de crenças. É que o crente deixa que Deus o santifique, enquanto o inconverso não o permitiu. [...] Sendo assim, o cristão não é necessariamente perfeito, mas alguém que se arrependeu do seu pecado e submeteu-se ao poder purificador do Espírito de Deus. [6]

Portanto, é fato consolidado que há um distanciamento entre as tradições wesleyanas e das Igrejas de Santidade, tão importantes no início do pentecostalismo, com a segunda fase da teologia assembleiana. Qualquer assembleiano que preze pela identidade soteriológica pode valorizar o arminianismo, mas o wesleyanismo é um intruso na história.

A exceção

Donald Stamps foi uma exceção. Ex-membro da Igreja do Nazareno, uma denominação de tradição wesleyana, o missionário Stamps produziu a popular obra Bíblia de Estudo Pentecostal onde, vez ou outra, deixou escapar uma vertente de perfeccionismo. Stamps afirmou: “Segundo o Novo Testamento, a santificação não é descrita como um processo lento, de abandonar o pecado pouco a pouco”, mas logo após defendeu que a “santificação é (também) descrita como um processo vitalício” [7]. A Bíblia de Estudo foi revisada por uma comissão, mas o vice-presidente da mesma era John Wesley Adams, outro ex-ministro nazareno. Porém, esse assunto foi motivo de controvérsia com outros membros da comissão editorial, como o falecido William M. Menzies, que certa vez afirmou em relação a Stamps: “Senti a necessidade de ser ‘enfadonho’ em argumentar o advento da graça de Deus”[8].

Conclusão

O reavivamento wesleyano no século XIX foi essencial para o nascimento do pentecostalismo. Todavia, algumas décadas depois o assembleianismo, uma das vertentes do pentecostalismo, rompeu claramente com essa tradição. O Batismo no Espírito Santo não é mais visto como uma “segunda obra da graça” como vertente santificadora, mas tão somente como um dom de capacitação evangelística e de serviço comunitário. Embora o arminianismo possa ser considerado como parte importante da identidade assembleiana eu, por assim dizer, repito que o resgate do wesleyanismo não é o resgate da nossa identidade.


------------------------
[1] ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio. Vol 2. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015. p 110.

[2] JENNEY, Timothy P. O Espírito Santo e a Santificação. Em: HORTON, Stanley M. (Ed). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 424.

[3] HORTON, Stanley. Doutrinas Bíblicas: Os Fundamentos da Nossa Fé. 8 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p 123.

[4] SILVA, Antonio Gilberto da. Verdades Pentecostais. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 140. Veja a mesma posição em: BERGSTÉN, Eurico. Teologia Sistemática. 2 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 188. HORTON, Stanley M. Santidade: A Perspectiva Pentecostal. Em: GUNDRY, Stanley (ed). Cinco Perspectivas sobre a Santificação. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. p 125-140. Para uma posição oficial em inglês veja o documento Sanctification & Holiness: ttp://ag.org/top/beliefs/topics/gendoct_05_sanctification.cfm

[5] SILVA, Antonio Gilberto da. O Fruto do Espírito: A Plenitude de Cristo na Vida do Crente. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. p 23.

[6] JENNEY, Timothy P. O Espírito Santo e a Santificação. Em: HORTON, Stanley M. (Ed). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 10 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p 425.

[7] STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1995. p 1937, 1938.

[8] ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 556.

10 comentários:

Marlon Marques disse...

Verdade é que a Assembleia de Deus rompeu com o ensino wesleyano da inteira santificação (ou perfeição cristã). Decidiram seguir William Durham. Entretanto, se o calvinismo pode adentrar o meio assembleiano, porque o wesleyanismo não? Aliás, todo o pentecostalismo era wesleyano até Durham. A maior igreja pentecostal dos Estados Unidos, a Church of God in Christ (Igreja de Deus em Cristo) é pentecostal holiness (ou pentecostal wesleyana). A Igreja de Deus Tennessee também é uma grande igreja pentecostal wesleyana. Logo, a Assembleia se aproximar do wesleyanismo tem mais a ver do que se aproximar do calvinismo.

Valderi Felizado da Silva disse...

Estranho, eu também pensava que o Espírito Santo vinha para nos santificar. Não recebo o Espírito porque sou santo, mas para me tornar santo, não?

Gutierres Siqueira disse...

Boa pergunta. Os sistematizadores da teologia assembleiana (Horton, Menzies) manifestaram mais incômodo com o wesleyanismo do que com o calvinismo. Tenho uma tese para isso: Com o wesleyanismo o pentecostalismo torna-se mero apêndice histórico e a doutrina do Batismo no Espírito Santo confunde-se com a "segunda obra da graça", o que é teologicamente e exegeticamente complicado.

R. Cunha disse...

A ideia de uma segunda obra da graça foi sustentada por Seymour em sua conhecida declaração de doutrina. E penso que a despeito de uma tradição posterior, é ele, Seymour, o precursor de toda uma teologia que terminou sendo descartada pelo pentecostalismo americano. Por consequência, pelo brasileiro igualmente. Eu tenho uma tese pra isso: No caso dos americanos (Horton e Menzies), suponho que preconceito com o Seymour. Que muitos julgavam como teologicamente fraco. No caso dos brasileiros, gritante desconhecimento dos documentos subscritos por Seymour. Um problema que deve ser apontado é que a doutrina do pentecostalismo clássico é um aproveitamento de outras tantas teologias. Assim como Wesley foi influenciado por Richard Baxter, Seymour o foi por Wesley. Que mal há nisso? Só há, quando se confunde santidade com moralismo.

R. Cunha disse...

Valderi, paz meu irmão. Seymour sustentava que para receber o batismo no Espírito Santo o "candidato" deveria preencher alguns requisitos básicos. A santidade era um desses requisitos. Para ele, santificação era uma limpeza realizada pelo Espírito para nos tornar santos. Neste sentido, ele se aproxima, e muito, do movimento holiness. Disse Seymour:

"Santificação é uma limpeza para tornar santo. Os discípulos foram santificados antes do dia de Pentecostes. Pelo estudo cuidadoso das Escrituras, você irá encontrar. “Vós estais limpos pela palavra que vos tenho dito” e Jesus soprou sobre eles o Espírito Santo” (Jo 15:3; 13-10; 20:21,22). Se entende que eles não poderiam receber o Espírito, se não estivessem todos limpos. Jesus os limpou e tirou todas as dúvidas de sua igreja antes de voltar para a glória. Os discípulos tiveram a graça do Espírito antes do dia de Pentecostes. Os discípulos tinham um enchimento do Espírito antes do dia de Pentecostes. Havendo Jesus purificado o santuário e tendo eles o testemunho em seu coração que Ele era o Senhor ressuscitado, e o Salvador, estavam sempre eles no templo louvando e bendizendo a Deus (Lc 24:51,53)."

Eu penso que este pensamento é teologicamente apropriado. Ou não? Sobre a dita Declaração de Doutrina assinada por ele, convido você a acessá-la, em português no seguinte link: http://teologiacarismatica.com.br/confissao-de-fe-azusa-street/

Paz meu irmão.

Pr. Alexandre Nery disse...

Artigo muito esclarecedor. Concordo que a AD não adotou a visão wesleyana não apenas sobre a santificação, mas também sobre a justificação. Tudo isso demonstra a necessidade cada vez mais gritante de nossa denominação definir-se mais claramente sobre alguns pontos doutrinários, inclusive os soteriológicos.

Gutierres Siqueira disse...

1. O texto não nega a influência decisiva do wesleyanismo sobre o pentecostalismo. Revejam o último parágrafo onde deixo esse ponto bem claro.

2. O texto não é sobre o Movimento Pentecostal, mas sobre a Assembleia de Deus. O Movimento Pentecostal, como um todo, ainda mantém fortes laços com o wesleyanismo, mas já não é o caso das Assembleias de Deus que, desde a década de 1960, alterou sua confissão de fé para justamente “romper” com a influência wesleyana.

3. Doutrinalmente a Assembleia de Deus no Brasil em nada, absolutamente em nada, difere da matriz norte-americana. Inclusive, o “Cremos” da AD brasileira é um resumo do documento ‘Verdades Fundamentais” da AD norte-americana.

4. Em momento algum falo que o wesleyanismo seja um problema para o pentecostalismo. O pentecostalismo é muito completo e complexo para jogar fora tradições ricas como wesleyanismo, arminianismo clássico, calvinismo etc. A questão do texto é sobre a identidade assembleiana.

5. Em qual ponto o wesleyanismo representa uma dificuldade para o pentecostalismo assembleiano? A doutrina do Batismo no Espírito Santo. Os pentecostais wesleyanos costumam associar esse dom à santidade. O próprio Seymour fazia isso. Aliás, os primeiros pentecostais em massa associavam o Batismo à santidade. Todavia, isso é bem problemático. Não há qualquer embasamento bíblico para associar o Batismo no Espírito Santo com a santificação. A santificação é papel do Espírito Santo, o Espírito santificador, mas tal processo está relacionado à salvação e não aos dons de serviço. O Batismo no Espírito Santo é um dom. Os dons espirituais, como um todo, não são atestados de santidade. Exemplo clássico é a Igreja em Corinto, uma igreja que não faltava nenhum dom, mas sobrava carnalidade. A capacitação sobrenatural para o trabalho do Senhor não garante nem a justificação nem a santificação. Talvez muitos pentecostais esquecem que o Batismo no Espírito é um dom de serviço, é um dom que capacita o crente ao testemunho do Evangelho. Não é à toa que após o pentecostalismo houve um impulso evangelístico e missionário como nunca antes visto na cristandade desde o advento do Iluminismo. Todavia, no tocante ao exemplo de piedade, moralidade, pureza, etc. muitas vezes o Movimento como um todo tem falhado em escândalos públicos e pecados ocultos. E, é claro, associar o Batismo no Espírito Santo a um estágio de santidade é “elitismo” espiritual.

R. Cunha disse...

Gutierres, se por um lado há quem ache elitismo espiritual tal associação entre o batismo no Espírito Santo, por outro, penso que há muitas questões na escrita de Seymour que denunciam uma tendência de transformar em regra o contexto carnal de Corinto (justificando práticas ocultas ou escândalos públicos), quando na verdade aquele contexto é exceção. Tomemos como exemplo Judas, visto que não é o padrão, o paradigma, no colégio apostólico, mas exceção à regra. É fato, como vemos na carta paulina que a igreja havia se afundado num processo de carnalidade. Mas quem garante que sempre foi daquele jeito? E, sobretudo, quem garante que eles não haviam alcançado um estágio elevado de santidade antes de receber o batismo? O desvio, possivelmente aconteceu depois em decorrência do orgulho espiritual. E como os dons são irrevogáveis, eis a questão que explica a abordagem de Paulo. Eu acho que o contexto de Corinto tem sido usado como justificativa para objetar as asseverações de Seymour. E este é um dos maiores problemas que vejo atualmente.

Paz meu irmão.

Vitor Germano Oliveira disse...

Na verdade a identidade doutrinária da assembleiana não foi completamente definida. Somos pentecostais e arminianos baseados no único documento doutrinário que possuímos, por enquanto, que é o nosso cremos. Ele é bem resumido e não "bate o martelo" em diversas questões importantes com relação a nossa identidade como denominação.
É importante ressaltar que no esquema soterilógico nosso documento não se posiciona, nem para o lado wesleyano nem para o arminiano clássico, haja vista que existe uma diferença relevante nesta área doutrinária.
Talvez o que ouçamos nos púlpitos se adeque mais a visão wesleyana, porém nem sempre o que é pregado nas igrejas reflete o pensamento da maior parte dos mestres da nossa Igreja que estão a elaborar a Declaração de Fé das Assembleias de Deus.

R. Cunha disse...

Comentário irretocável, Vitor Germano!