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domingo, 5 de junho de 2016

Alguns esclarecimentos necessários sobre a Declaração de Fé das Assembleias de Deus

Edição do "Mensageiro da Paz" de 1969.
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Nas redes sociais há inúmeros boatos e informações desencontradas sobre a Comissão Especial da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) que está elaborando um documento doutrinário oficial, a fim de atualizar e ampliar o Cremos (leia aqui). Infelizmente, alguns internautas viciados em polêmicas estão trazendo mais confusão do que claridade sobre o tema. Veja abaixo o que de fato está acontecendo. 

1. A CGADB não está criando nenhuma Confissão de Fé, mas sim e tão somente uma Declaração de Fé.

Essa distinção não é mera questão semântica, mas tecnicamente importante. A pretensão da convenção não é criar um manual compatível ou rival aos grandes documentos da Reforma. As Confissões de Fé históricas são documentos produzidos no contexto e na efervescência da Reforma Protestante. A Assembleia de Deus brasileira, na representação jurisdicional da CGADB, não tem tal nenhuma ideia megalomaníaca de criar um compêndio doutrinário a fim de competir com esses documentos. Outro ponto, a AD também não está criando um credo. Os credos são documentos doutrinários produzidos no contexto da patrística e representam o consenso doutrinário da cristandade, seja essa católica, ortodoxa ou protestante. O documento é uma declaração e refletirá o atual Cremos e, também, pretende abordar assuntos éticos como aborto, homossexualidade, eutanásia etc.

2.      Esse não será o primeiro documento doutrinário oficial da denominação.

Desde a década de 1960 a AD brasileira dispõe do Cremos, um documento com quatorze pontos. O Cremos é basicamente um resumo da Declaração de Verdades Fundamentais das Assembleias de Deus norte-americana. Além disso, a Convenção Geral trabalha com resoluções e recomendações doutrinárias onde, por exemplo, já se posicionou oficialmente contra a chamada Bênção de Toronto, o Movimento G-12 e a Teologia da Prosperidade.

Em um manifesto oficial publicado em abril de 2000 a CGADB assim definiu o Movimento G-12:

Por vezes, aparecem no cenário evangélico brasileiro alguns movimentos de características eminentemente flutuantes. Nestes dias, o mais novo deles é o G-12, que promove sutilmente um novo estilo de vida cristã, calcado na visão de um sucesso rápido e fácil, e de um crescimento mágico e milagroso da igreja, através de uma suposta revelação de Deus recebida pelo líder do G-12, que sonha em ter a maior igreja do mundo, fazendo assim qualquer coisa para alcançar os seus intentos de se autopromover como líder mundial interdenominacional, propondo um "novo conceito" religioso com mudanças na liturgia, nos bons costumes, na doutrina sagrada, no conceito real da Igreja de Cristo, na linguagem genuína da pregação do evangelho, na conduta cristã, no comportamento ético-estético do crente, com uma dose excessiva de estímulos à busca frenética por prosperidade instantânea, libertação autossuficiente, unção mágica e perfeição absoluta, utilizando-se para tanto de desavisados e inocentes para espalharem suas heresias.

E sobre a Benção de Toronto, vejam só, assim a Convenção Geral se posicionou oficialmente em 2002:

Sob o esfuziante tema “Não extingais o Espírito” o 8° ELAD trouxe a tona os fenômenos promovidos pelos movimentos neopentecostais como: “cair no Espírito”, “sopro do Espírito”, “benção de Toronto”, “dançar no Espírito”, “dentes de ouro” e outras enxurradas de práticas inovadoras que andavam perturbando o seio da igreja. Nas palestras ministradas pelos pastores José Wellington Bezerra da Costa, Antonio Gilberto, Elienai Cabral e Elinaldo Renovato de Lima, os mais de 700 pastores e evangelistas inscritos no encontro, puderam constatar que a Bíblia não oferece nenhum respaldo para tais acontecimentos e reafirmaram que o autêntico mover do Espírito é aquele que traz avivamento espiritual, batismo no Espírito Santo e transformação na vida do homem.

Outro exemplo recente, em outubro de 2003, esteve na conhecida carta de repúdio aos modismos doutrinários do pastor Ouriel de Jesus, que acabou expulso da CGADB por pregar novas revelações autoritativas e maluquices como a “unção da capa de Elias”. Sobre a tal “unção da capa” o pastor Esequias Soares, então presidente da Comissão de Apologia, declarou ao jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial de comunicação da denominação:

Isso é uma invenção do homem e não uma doutrina, e está trazendo problemas para a igreja, porque a pessoa ora com imposição de mãos e quem recebe a oração tem de sentir um peso nas costas. Caso isso não aconteça, ela não recebeu a unção. É a mesma coisa ensinada no mormonismo, onde a pessoa precisa sentir um ardor no peito para ser abençoado, e se ela não sentir nada, ela não é fiel. Tudo isso não passa de pressão psicológica sobre as pessoas.

Ou seja, falar que a Assembleia de Deus não tem posição oficial é desconhecer a história recente e antiga dessa igreja centenária.

3.      Ora, por que pastores assembleianos calvinistas não foram convidados?

Esse tipo de pergunta só faz quem não conhece a denominação. Os pastores calvinistas nas Assembleias de Deus são um grupo importante, mas ínfimo. A denominação tem milhares de pastores e milhões de obreiros, mas os declaradamente calvinistas não enchem um ônibus, especialmente entre aqueles com acesso a postos de influência nas convenções estaduais. É claro que é sempre bom ouvir a divergência, mas sem delimitação esse trabalho duraria anos ou até décadas. O número proporcional de pastores calvinistas nas Assembleias de Deus deve ser parecido com o número de pastores arminianos na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), embora esses últimos sejam mais, digamos, discretos, logo porque a tradição presbiteriana não é conhecida pela tolerância com aqueles que contrariam seus sínodos.

Outro ponto. A maior parte dos nomes da atual comissão já fazia parte de outros grupos doutrinários, como o Conselho de Doutrina e a Comissão de Apologética da Convenção Geral, além da consultoria teológica da Casa Publicadora.

E por último: qual denominação no mundo cria comissões doutrinárias para discutir todo tipo de divergência? Não é sensato exigir da Assembleia de Deus o que não é exigido de outros grupos históricos. Eu, por exemplo, gostaria muito que a escatologia assembleiana fosse menos apegada ao dispensacionalismo clássico, mas quem pensa como eu na denominação? Alguns poucos sujeitos que não enchem outro ônibus. A maioria esmagadora dos assembleianos é dispensacionalista, sejam eles obreiros ou leigos, e exigir uma mudança nesse ponto seria imaturidade da minha parte, ainda mais porque esse tipo de escatologia é uma marca identificada historicamente.

E, outra, se a Declaração de Fé terá inclinações arminianas, eu sinceramente não sei. Até onde pude apurar é provável que esse ponto fique mais claro (mas o quanto claro?). Caso isso venha a se confirmar, meus caros, não é nenhum fim do mundo para os calvinistas da denominação. A instituição tem o direito de se posicionar. O que eu sempre repudiarei é a ideia de “caça às bruxas”, assim como o sectarismo. Todavia, não vislumbro tal perigo nesse documento e nem na postura, sempre lenta e tolerante, da Convenção.

4.      Quem não subscrever o documento pode ser expulso da Convenção Geral?

Em tese sim, mas esse cenário é pouquíssimo provável. A CGADB não é conhecida pela vigilância sobre o ensino doutrinário dos seus pastores filiados. Tal liberdade é para o bem e para o mal, pois ao mesmo tempo permite a tolerância com quem diverge em algum pouco como permite pastores e pregadores sem nenhum compromisso doutrinário, ético e, acima de tudo, bíblico. O caso Ouriel de Jesus é uma exceção porque, convenhamos, era escandaloso demais para que a Convenção simplesmente ignorasse.  

5.      O trabalho da comissão já está concluído?

Ainda não. O esboço da nova Declaração será apresentado nas convenções estaduais e nacionais. 

Conclusão. E, por último, recomendo aos interessados nesse importante assunto que acompanhem o trabalho da comissão especialmente pelo jornal Mensageiro da Paz. Assim, se evitará comentários baseados em boatos e mentiras. E, também, oremos para que a equipe faça o melhor trabalho possível. 

2 comentários:

ETERNYZANTE disse...

Jose W.Bezerra fez parte da comissão que analisou a tal da "benção de toronto" declarando ser "antibíblica" (rsrsrsrssr)Mas uma galinha falando línguas e um galo interpretando dizendo que "deus" (esse deus é cm letra minuscula mesmo) usou os animais para curar o câncer do cidadão ele APOIOU!!! Não é antibíblico...!
Que desfaçatez !!Olhem o video

https://www.youtube.com/watch?v=vNNlXS8W0t8

Márcio Cruz disse...

Muito bom!
Texto afasta-espantalhos.
O que me deixa encasquetado é ver pessoas de fora (nem da AD são) desmerecendo o trabalho que está sendo feito.

#oremos