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domingo, 19 de junho de 2016

Jesus Cristo foi um revolucionário político?

Muitos substituíram o liberalismo, o conservadorismo ou algum outro “ismo” por Cristo e cooptam Cristo para a causa deles. Cristo não pode ser cooptado por nenhuma causa; todas as causas têm de ser cooptadas por ele. Todos os “ismos” são abstrações. Até mesmo o “ismo” perfeito, se houver algum, não pode nos salvar nem nos amar. [Peter Kreeft][1]

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não há dúvida que Jesus trouxe um tsunami para o judaísmo de sua época e, consequentemente, para a história de todo o mundo antigo e moderno. A forma como o homem entende a religião e a própria vida mudou com o nazareno. O mundo é outro depois do nascimento do Messias. Isso é reconhecível mesmo para um homem sem fé. Porém, historicamente Jesus tinha pretensões políticas na Palestina do primeiro século? Jesus, como líder humano e carismático, teve qualquer vontade de provocar uma revolução política? Jesus tinha algum projeto de poder temporário? Queria Ele assumir o lugar de César para libertar os oprimidos da Judeia contra o imperialismo romano?

De vez em quando vejo a turma teológica-ideológica-progressista postulando a ideia que Jesus era uma espécie de revolucionário político. Esse pensamento é tão estranho, exótico e absurdo que o erudito Joachim Jeremias (1900 – 1979), um dos maiores especialistas em Novo Testamento e um intelectual ponderado, dizia que quem faz essa interpretação "não entendeu Jesus”[2]. É a velha tentativa da teologia de cunho racionalista em produzir um Cristo segundo a própria imagem e semelhança do homem moderno. O estudioso judeu Géza Vermès (1924-2013), que não foi propriamente um cristão tradicional, escreveu: “Não que pareça ter havido algum desacordo fundamental entre Jesus e os fariseus no tocante a temas essenciais... Não há na minha leitura dos evangelhos indícios que apontem para qualquer envolvimento de Jesus nas questões revolucionárias dos zelotes”[3].  Essa leitura ideológica de Jesus partiu de teólogos com bases marxistas como Fernando Belo, Michel Clévénot e George Casalis. É óbvio que tais nomes influenciaram ideólogos da Teologia da Libertação e, também, do próprio renascer adocicado do liberalismo teológico.  

Vejamos os motivos para rejeitar como ficção de quinta categoria qualquer alegação de revolução política em Jesus:

1.      Relação amistosa com os samaritanos. O tratamento dado aos samaritanos afastava o Mestre de qualquer postura ultranacionalista, traço tão comum aos zelotes de sua época. Bem, quem eram os zelotes? Era um grupo ultranacionalista de judeus que enxergava na aceitação da dominação estrangeira e no pagamento de impostos a Roma um ato blasfemo contra o próprio Yahweh. Os zelotes eram extremistas, usavam táticas de ataques repentinos (terrorismo) contra os inimigos e eram minoritários entre os judeus, mas foram essenciais no levante contra Roma na década de 60 do primeiro século. O historiador judeu Flávio Josefo (37 d.C.- 100 d.C.) atribui aos zelotes “a primeira causa da ruína de Jerusalém”[4]. Os zelotes, inclusive, matavam judeus que, na visão deles, colaboravam com Roma. Pelas táticas de ataque os zelotes eram conhecidos como sicários (apunhaladores) pelos romanos porque tinham o costume de esconder um punhal embaixo das vestes para atacar em meio a uma multidão sem serem pegos facilmente. 

2.  A purificação do templo (João 2.12-22). Os discípulos ao lembrar o Antigo Testamento, especialmente do Salmo 69.9, mostraram que a motivação de Jesus não era subversiva, mas de purificação ritualística, profética e escatológica. Jesus, ao purificar o templo, é imediatamente remetido ao servo sofredor do Salmo 69.  A escatologia do judaísmo pregava o estabelecimento de um novo templo na era messiânica (Ez 40-44; 1 En 90.28-36; Sl. Sal. 17.30; 4QFlor 1.1-13). Ora, é importante observar que a ação purificadora de Jesus se deu “no pátio do templo” (v. 14), uma área destinada aos gentios. Portanto, para Jesus, na era messiânica o espaço dos gentios deveria ser igualmente livre para adoração.  O significado teológico da ação de Jesus foge de qualquer escopo nacionalista, pois, ao contrário, tal “revolta” mostrou como Jesus valorizava a figura do não-judeu na adoração estabelecida.

3.    Nenhum discípulo preso. Como lembra Gerd Theissen: “Nenhum dos discípulos de Jesus foi preso com ele, o que certamente seria de esperar na hipótese de um movimento de rebelião”[5].

4.    A espada em Lucas 22.38. Jesus mostra aos discípulos que não esperassem mais hospitalidade e generosidade no trabalho missionário. Agora, ao contrário, iniciaria um tempo sombrio e hostil. Não é nenhum convite a qualquer revolta, pelo contrário, mas apenas a preparação comum de um viajante nas estradas perigosas do mundo antigo.  O historiador Flávio Josefo mostra que até mesmo os essênios, conhecidos pela vida pacata e asceta, usavam armas em suas viagens[6].

5.    Simão, o zelote. A adjetivação de Simão como zelote (Lc 6.15) mostra que os demais discípulos, excetuando Judas, e o próprio Jesus estavam excluídos desse grupo revolucionário. Se eu falo que congrego numa igreja onde o Karl, o alemão, também congrega, logo estou mostrando que esse estrangeiro é uma exceção entre os meus.

Sobre essa leitura míope de um “Cristo revolucionário”, o teólogo e exegeta Francis Pierre Grelot (1917-2009) escreveu e sintetizou bem o assunto:

Trata-se de fantasias sem valor histórico: a ótica de leitura adotada falseia constantemente os textos, projetando neles a ideologia (dos autores). (...) Ficamos surpresos ao constatar entre esses (teólogos) uma adoção ingênua dos postulados marxistas, classificados como ‘científicos’, sem distância nem espírito críticos. Se é verdade que a análise sociológica do judaísmo antigo e do cristianismo primitivo seria fecunda para renovar a leitura dos textos (bíblicos), é verdade também que a “redução” à qual conduz este espírito de sistema introduz neles verdadeiros preconceitos que falseiam sua compreensão.[7]

Portanto, reduzir Cristo a uma espécie de Che Guevara primitivo não é só pobreza exegética, é acima de tudo uma forma de idolatria idiota.




[1] KREEFT, Peter. Jesus: o maior filósofo que já existiu. 1 ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2009. p 145.
[2] JEREMIAS, Joachim. Teologia do Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Hagnos, 2008. p 334.
[3] VERMES, Geze. Jesus e o Mundo do Judaísmo. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 20.
[4] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 25160.
[5] MERZ, Annette e THEISSEN, Gerd. Jesus Histórico: um Manual. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. p 486.
[6] JOSEFO, Flávio. História dos Judeus. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1990. pos 21689.
[7] GRELOT, Pierre. Esperança Judaica no Tempo de Jesus. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p 126.

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