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quinta-feira, 30 de junho de 2016

O que é evangelização

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Evangelizar é a ação de proclamar as boas novas de Cristo Jesus. Todavia, toda definição é limitada diante de uma realidade complexa. Assim, é necessário ampliar o escopo de entendimento sobre a natureza evangelizadora da Igreja.

A evangelização é um processo comunicativo. Comunicação é definida como um “processo que envolve a transmissão e a recepção de mensagens entre uma fonte emissora e um destinatário receptor, no qual as informações, transmitidas por intermédio de recursos físicos (fala, audição, visão etc.) ou de aparelhos e dispositivos técnicos, são codificadas na fonte e decodificadas no destino com o uso de sistemas convencionados de signos ou símbolos sonoros, escritos, iconográficos, gestuais etc.” (Dicionário Houaiss). Logo, não existe comunicação se o receptor não receber a mensagem e, também, se os ruídos da comunicação não impedirem a fluência da boa notícia. É importante observar que a mensagem nunca será recepcionada numa tabula rasa, ou seja, cada palavra, gesto e ação do evangelizador serão igualmente codificados pelo ouvinte ao mesmo tempo em que será ele- o evangelizado- julgará o evangelizador e sua mensagem segundo premissas e valores próprios.


Quando Paulo perguntou aos efésios se esses haviam recebido o Espírito Santo ele recebe uma resposta sincera: "Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo” (Atos 19.2). Como entender e experimentar uma verdade sem o contexto da necessidade?  Da mesma forma, a comunicação evangelizadora sempre precisa apresentar o contexto de sua novidade. O escritor inglês G. K. Chesterton dizia que “o jornalismo consiste em anunciar que 'Lord Jones morreu’ para pessoas que nem sabiam que Lord Jones estava vivo". Irônico, não é? Na evangelização o mesmo pecado é cometido: muitas vezes se fala de um Salvador, Jesus Cristo, sem antes mostrar por qual razão eu necessito de salvação. Não me esqueço de uma entrevista que assisti pela TV há alguns anos; isso porque um dos apresentadores perguntou ao convidado, um filósofo com formação teológica, por qual motivo ele precisava ser salvo. Não lembro qual a resposta dada ao entrevistador cético, mas aquela pergunta sintetizava a essência do homem contemporâneo. Ora, se há uma coisa que o homem moderno mais abomina é a ideia que ele precisa ser salvo, especialmente de si mesmo, quando desde criança o sujeito é educado como o próprio salvador do mundo.

A herança cultural, a personalidade, os vícios, as manias, a ideologia etc. afetará a forma como o ouvinte recebe, recepciona, examina e interpreta a mensagem, seja aceitando-a ou rejeitando-a. Quem evangeliza, portanto, precisa entender o terreno onde pisa. O evangelizador sempre será um missionário transcultural em sua própria cultura, um estrangeiro entre os seus compatriotas. Assim, embora não seja necessário mudar o léxico, o evangelizador precisa aprender novas línguas. O teólogo Bruce J. Nicholls observa que há pregadores que proclamam o evangelho da mesma maneira para todos os tipos de audiência: “quer seja ela composta de católicos, hindus, muçulmanos ou marxistas”[1]. Não há lógica do discurso monocromático. Evangelizar, portanto, sempre será um choque de visões de mundo, mas, antes, é necessário entender a visão de mundo do ouvinte.

A evangelização não é proselitismo. A pregação do Evangelho consiste numa atividade humana dependente inteiramente da graça divina. O evangelista, e todo cristão é um evangelista, precisa entender que o impacto da mensagem do Evangelho não depende dele. É o Espírito Santo quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (cf. João 16.18). Portanto, a pregação do Evangelho não é um jogo de convencimento, não é uma disputa retórica e nem mesmo um debate, mas tão somente uma proclamação embalada de misericórdia.

Atenção, eu não estou dizendo que não seja possível (e até desejável) evangelizar em debates acadêmicos ou mesmo por meio da oralidade rebuscada, mas apenas que o evangelismo não depende desses mecanismos para a sua eficácia. Há filósofos e pensadores cristãos que fazem até mesmo seguidores fiéis, alguns verdadeiros prosélitos, mas não necessariamente levam tais pessoas a Cristo, mas a somente si mesmas. Há sempre um limite para o nosso labor, mesmo o intelectual.

Observe os destaques desses textos bíblicos:

E (a igreja dos primeiros dias) perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. (Atos 2.42-47).

E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei e não com manjar, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis; porque ainda sois carnais, pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu, de Apolo; porventura, não sois carnais? Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?  Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Pelo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão, segundo o seu trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. (1 Coríntios 3. 1-9).

Inúmeras vezes o Evangelho é apresentado como se fosse mais uma ideia na prateleira das ideologias existentes ou, ainda, mais uma fé entre inúmeras crenças religiosas, porém sendo a melhor e mais adequada. O apóstolo Paulo quando defrontado com a realidade de pregar em um ambiente que respirava pluralismo religioso tomou o cuidado de mostrar como a essência do próprio paganismo só podia ser inteiramente satisfeita em Cristo (cf. Atos 19). O apóstolo dos gentios usa a figura do “deus desconhecido” justamente para mostrar como a fé do homem pagão só encontraria plenitude e sentido no Senhor do Universo. O evangelista cristão apresenta a fé não como algo estranho ao ouvinte, mas como o encontro com o desejo mais profundo de sua alma.

Evangelizar não é brincar de falso profetismo. No fundamentalismo protestante é comum o discurso inflamado em favor da moralidade e dos bons costumes. À semelhança dos profetas veterotestamentários, esses evangelistas midiáticos anunciam o juízo sobre a condição deplorável de pecado e imoralidade na sociedade contemporânea. Embora tais alertas sejam inspirados no Velho Testamento, é bom lembrar que naquela época os mesmos profetas anunciavam e ofereciam a esperança da redenção após a dureza do juízo. Ou seja, existiria uma aliança pós-exílica. Ora, não parece que tais evangelistas moralistas de hoje ofereçam qualquer esperança de redenção, logo porque não há salvação no moralismo. Evangelizar não é teocratizar uma sociedade; não é forçar uma santidade sem a graça, uma moral sem Cristo e uma “vida correta” sem redenção. Ou como dizia John Owen: “Aquele que troca a soberba pelo mundanismo, a sensualidade pelo farisaísmo, a vaidade pelo desprezo do próximo, não pense que mortificou e abandonou o pecado. Mudou de dono, mas continua escravo”[2]. Evangelizar é proclamar que apenas em Cristo temos a vida transformada, remida, santificada, justificada, regenerada e, por fim, glorificada.

Portanto, sempre é necessário entender as diversas dimensões da evangelização.

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Este texto serve como subsídio da Lição 1 – O que é Evangelização nas Lições Bíblicas da Escola Dominical. Boa aula! 



[1] NICHOLLS, Bruce J. Contextualização: Uma Teologia do Evangelho e Cultura. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2013. p 9.

[2] OWEN, John. A Mortificação do Pecado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 73.

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