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terça-feira, 12 de julho de 2016

O Batismo no Espírito Santo: a Questão Hermenêutica

Por Gutierres Fernandes Siqueira

A doutrina do Batismo no Espírito Santo com a evidência física e inicial do falar em novas línguas é, certamente, controversa. Ao mesmo tempo, esse ensino está mal colocado no mercado das ideias teológicas. Há pouquíssimo material em português sobre o assunto. E, praticamente, só dispomos de uma obra de nível acadêmico sobre o tema na perspectiva de pentecostais assembleianos, que é o livro No Poder do Espírito (Editora Vida) de William e Robert Menzies. Obra essa a quem sou devedor, assim como dos livros The Charismatic Theology of St. Luke (Baker Academic) de Roger Stronstad e Reading Luke-Acts in the Pentecostal Tradition (CPT Press) de Martin Mittelstadt.[1]

É assustador ver o número crescente de membros das Assembleias de Deus que descreem dessa doutrina. É como se um batista, por exemplo, passasse a adotar o pedobatismo ou um presbiteriano o modelo de governo congregacional. Dá para imaginar um metodista entusiasta da santificação progressiva? Ou seja, não faz o menor sentido desprezar a doutrina que é a própria essência do movimento que o membro pertence. E vejo que essa descrença se dá por dois motivos: como uma reação desproporcional aos exageros pneumaníacos e, também, pela ignorância doutrinária da própria liderança assembleiana.

O objetivo deste texto (e da série) não é ressaltar diferenças doutrinárias pelo prazer da divergência, longe disso, mas se trata especialmente de uma explicação do que realmente vem a ser a crença pentecostal-assembleiana. Lamentavelmente, o desconhecimento dessa maravilhosa doutrina começa entre os próprios pentecostais. Não é possível nem ao crítico nem ao crente adotar uma doutrina pela via do espantalho. Seja para analisar criticamente ou positivamente, é essencial conhecer a doutrina que professamos.

Quais são os princípios hermenêuticos que sustentam essa doutrina?

Lucas não é meramente um historiador. Ele é um teólogo

A doutrina do Batismo no Espírito Santo se baseia especialmente na literatura lucana, particularmente em Atos dos Apóstolos, mas não somente nela. Os textos em destaque são: Atos 1.4,8; 2.1-4; 8. 12-17; 10. 44-46; 11. 14-16; 15. 7-9; Lucas 24.49. O teólogo anglicano John Sttot, em oposição à doutrina do Batismo no Espírito Santo, popularizou a ideia que tal doutrina não pode se basear em Atos porque o autor faz apenas uma narrativa e não um tratado teológico.  “A doutrina do Espírito Santo não pode ser deduzida de passagens meramente descritivas de Atos”, escreveu Stott[2].

Esse argumento de Stott é inconsistente por alguns motivos: (1) Uma narrativa descritiva não quer dizer falta de conteúdo teológico por parte do autor. Seria o mesmo que dizer que o Evangelho segundo Mateus não tinha alguma intenção teológica com seu conteúdo. Não só Mateus, mas também Marcos, João e Lucas escreveram os Evangelhos não apenas como historiadores, mas, sobretudo como teólogos. E aí devemos lembrar que originalmente Atos dos Apóstolos é um texto integrado ao Evangelho de Lucas. (2) Se esse princípio fosse levado ao pé da letra parte da eclesiologia perderia sentido, pois o protestantismo sempre leu Atos como uma forma de retomar diretrizes missiológicas, litúrgicas e de organização. (3) Se doutrinas bíblicas fossem elaboradas meramente de textos doutrinários, como as epístolas, não é exagero afirmar que parte do Credo Apostólico poderia ser rejeitado como falso. (4) E até possível entender a preocupação de Stott. De fato, partes da narrativa dos Evangelhos e em Atos não servem como padrão. Exemplo são as curas com sinais externos como cuspe de Jesus, a sombra de Pedro, o lenço de Paulo ou mesmo a venda de todos os bens dos crentes primitivos etc. Mas veja que em todos esses casos o evento miraculoso ocorre apenas uma vez e o evangelista não faz uma ponte com qualquer promessa veterotestamentária. Ainda assim, esses textos narrativos também servem como princípio teológico, pois neles está contida a ideia que Deus pode eventualmente usar meios extraordinários para o impulso de um milagre.

Como brilhante teólogo que era Stott voltou reticentemente atrás em outro livro de 1990. A obra Batismo e Plenitude do Espírito Santo é de 1964. O anglicano escreveu: “Não estou negando que as narrativas históricas têm uma finalidade didática, pois é claro que Lucas era tanto um historiador e um teólogo. Estou afirmando que a finalidade didática de uma narrativa nem sempre é evidente em si mesma e por isso muitas vezes precisa de ajuda interpretativa de outro lugar nas Escrituras”[3]. Por fim, Stott deixa claro que é possível, ainda que não desejável, tomar conclusões doutrinárias a partir de uma narrativa histórica.

Na literatura teológica mais recente não parece ter mais dúvidas que o livro de Atos dos Apóstolos foi escrito com propósitos teológicos, não meramente históricos, exemplo é o livro Introdução ao Novo Testamento de D. A. Carson, Leon Morris e Douglas J. Moo: “Está claro que Lucas escreve com propósitos teológicos”[4]. E David S. Dockey complementa: “Os retratos que temos de Jesus e sua interpretação de Jesus, ainda que históricos, são moldados pelo propósito teológico dos autores dos Evangelhos. A atual crítica redacional tem nos ajudado a ver que os autores dos Evangelhos foram criativos em sua adaptação e comunicação do material de Jesus e sobre ele”[5].  Outro exemplo é do teólogo escocês I. Howard Marshall que escreveu:

Embora enfatizemos que Lucas estava escrevendo uma narrativa histórica acerca dos inícios do cristianismo, e embora rejeitemos o ponto de vista de que escreveu a fim de transmitir um conceito teológico específico, nem por isso devemos deixar de perguntar acerca da natureza do ponto de vista teológico que chega a expressar-se em Atos. Não há dúvida de que Lucas percebe que a história tem importante significado teológico, e de que ressaltou este significado conforme a sua maneira de narrá-la.[6]

Mesmo um professor do Dallas Theological Seminary, uma escola reconhecidamente anticarismática, como Darrell L. Bock reconhece que na narrativa lucana a temática é sobre um revestimento de poder para o serviço:

O dom, em geral, descreve a capacitação de testificar de forma ousada de Jesus. Em algumas ocasiões a expressão descreve, de forma geral, o caráter espiritual do indivíduo. As palavras demonstram que o Espírito é a força motriz por trás da efetividade da Igreja Primitiva. Jesus concedeu o Espírito não apenas para mostrar que a promessa era cumprida, mas também a fim de capacitar a Igreja para realizar sua missão de levar a mensagem do evangelho ao mundo[7].

É fato, uma leitura honesta de Lucas-Atos levará em conta que a estrutura não é jornalística, mas histórico-teológica.

A pneumatologia lucana é diferente da paulina

 Como dito acima essa é uma doutrina baseada especialmente nos escritos de Lucas, e é natural que assim o seja, pois a pneumatologia paulina é essencialmente relacionada ao contexto eclesiológico, ético e moral, enquanto em Lucas é eclesiológico e missional. “Para Lucas a função do Espírito não é, propriamente, a de santificar; em primeiro lugar é a de impulsionar os discípulos para a missão”, escreve Alberto Casalegno[8]. Ou seja, enquanto Paulo apela para como o Espírito Santo transforma o caráter cristão, Lucas, essencialmente, mostra como o Espírito Santo capacita o homem para testemunhar de Deus. O missiólogo David J. Bosch resume essa questão magistralmente e, por favor, aqui vale a longa citação:

Nos escritos de Lucas, o Espírito da missão é também o Espírito de poder (em grego: dynamis). Isso se aplica tanto à missão de Jesus (Lc 4.14; At 10.38) quanto à dos apóstolos (Lc 24.49, At 1.8). Assim, o Espírito é, além disso, não só o iniciador e guia da missão, mas também aquele que capacita para a missão. Isso se manifesta particularmente na ousadia das testemunhas depois de terem sido dotadas do Espírito. Em Atos, Lucas usa muitas vezes os termos parresia e parresiazomai (“intrepidez”; “falar intrepidamente”) (cf. 4.13, 29, 31; 9.27; 13.46; 14.3; 18.26; 19.8). O que se propõe é sempre que isso foi possibilitado pelo poder do Espírito. E o Espírito que torna intrépidos discípulos que antes estavam atemorizados. Através do Espírito, Deus controla a missão (...). A estreita ligação de pneumatologia e missão é a contribuição distintiva de Lucas para o paradigma missionário da igreja incipiente. Nas cartas de Paulo- provavelmente escritas cerca de 30 anos antes de Lucas-Atos- o Espírito é relacionado com a missão de maneira apenas marginal. Por volta do século 2 d. C., a ênfase havia mudado, salientando o Espírito quase exclusivamente como agente de santificação ou como garante da apostolocidade. A Reforma protestante do século 16 tendeu a colocar a ênfase principal na obra do Espírito como aquele que dá testemunho da palavra de Deus e a interpreta. Só no século 20 houve uma redescoberta gradativa do caráter missionário intrínseco do Espírito Santo. Isso aconteceu, entre outras coisas, por causa de um estudo renovado dos escritos de Lucas. Sem dúvida, Lucas não pretendia sugerir que a iniciativa, a orientação e o poder do Espírito na missão se aplicassem apenas ao período sobre o qual ele estava escrevendo. Elas tinham, em sua opinião, validade permanente. Para Lucas, o conceito do Espírito selava a afinidade entre a vontade salvífica universal de Deus, o ministério libertador de Jesus e a missão mundial da igreja.[9]

É um erro corriqueiro na interpretação da Bíblia a ideia que os autores escriturísticos, ao citar uma expressão ou tema comum, estão exatamente tratando do mesmo assunto. Isso não é verdade e há inúmeros exemplos possíveis. A forma como Paulo e Tiago trabalham a doutrina da justificação é um exemplo. A ênfase de cada um é diferente, mas isso não quer dizer contradição, mas complementaridade. Os evangélicos costumam pensar na teologia excessivamente em categorias sistemáticas, o que é prejudicial para o trabalho hermenêutico, logo porque “não devemos nos atrever a sobrevalorizar a unidade das Escrituras a ponto de eliminar as ênfases individuais [...] Isso pode acarretar um uso errado de paralelos de forma que um autor é interpretado com base em outro, resultando num entendimento errôneo”, escreve o hermeneuta Grant R. Osborne. É óbvio que o valor didático da sistemática é inestimável, mas “a própria doutrina da inspiração nos obriga a reconhecer por trás dos textos a personalidade de cada autor sagrado”, para citar novamente Osborne[10].

Aqui não se trata de uma defesa da teologia bíblica em detrimento da teologia sistemática. Precisamos de ambas, mas certamente que o trabalho hermenêutico depende bem mais da primeira. Outro ponto, a teologia bíblica é estruturada em dois princípios: (1) o contexto histórico, ou seja, como aquela mensagem soou para o público original e, também, é (2) necessário ler a Escrituras em seus próprios termos e prestar “atenção especial não somente os conceitos tratados por ela, mas às próprias palavras, ao vocabulário e à terminologia empregada pelos autores bíblicos”[11]. Infelizmente, mesmos os bons teólogos esquecem esse princípio básico de hermenêutica quando tratam da pneumatologia neotestamentária. O protestantismo tradicional faz uma leitura da ação do Espírito Santo apenas a partir de uma perspectiva paulina, desprezando tanto a teologia do Antigo Testamento e a teologia lucana sobre o assunto.

Vejamos um caso comum: a expressão “cheio do Espírito” não pode ser lida da mesma forma na teologia paulina e lucana, a exemplo do que faz o maior parte dos teólogos evangélicos. Os tradicionais concluem que a plenitude do Espírito tem como propósito a santidade, o que é verdade dentro da perspectiva paulina, mas ao mesmo tempo ignoram que na teologia neotestamentária a plenitude do Espírito também é missional, como vemos em Lucas-Atos[12]. Portanto, tomar Efésios 5.18 para interpretar o enchimento do Espírito em Atos é uma “transferência ilegítima de totalidade”. Essa ação se dá quando “os vários significados que uma palavra tem em todos os seus contextos na Bíblia estão todos em uma única passagem”, como explica o teólogo Vern S. Poythress[13][14].

A objeção corrente à doutrina do Batismo no Espírito Santo é um exemplo de como a leitura seletiva de alguns textos neotestamentários estreita a visão integral sobre a ação do Santo Espírito. A verdade, e ainda mais a verdade revelada nas Escrituras, é complexa, rica e multifacetada. A verdade, também, é experimental. Muitas vezes como hermeneutas e exegetas temos dificuldades de assimilar aquilo que é óbvio para a comunidade de crentes. E aqui não se trata de mera oposição entre racionais e pragmáticos, logo porque a falta da própria experiência também nos tenta a ignorar princípios básicos das Escrituras.






[1] Este artigo é o primeiro de uma série sobre a doutrina do Batismo no Espírito Santo.
[2] STOTT, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. 3 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2007. p 32. Essa interpretação foi popularizada pelo Stott, mas também está presente em outros teólogos, até mesmo no assembleiano Gordon Donald Fee. Veja: PACKER, James Inn. Na Dinâmica do Espírito. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1991. p 165-193. FEE, Gordon Donald e STUART, Douglas. Entendes o que lês? 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 79-97. GRAHAM, Billy. O Poder do Espírito Santo. 2 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 69-91.
[3] STOTT, John. The Spirit, the Church, and the World. 1 ed. Downers Grove: Inter Varssity Press, 1990. p 8.
[4] CARSON, D. A., MOO, Douglas J. e MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997. p 223.
[5] DOCKERY, David S. Hermenêutica Contemporânea à Luz da Igreja Primitiva. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 190.
[6] MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1982. p 21.
[7] ZUCK, Roy B. (Ed). Teologia do Novo Testamento. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 108.
[8] CASALEGNO, Alberto. Ler os Atos dos Apóstolos: Estudo da Teologia Lucana da Missão. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p 188.
[9] BOSCH, David J. Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. 4 ed. São Leopoldo: Sinodal e EST, 2014. p 148-149.
[10] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: Uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009. p 34.
[11] KÖSTENBERGER, Andreas J. e PATTERSON, Richard D. Convite à Interpretação Bíblica: A Tríade Hermenêutica. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2015. p 648.
[12] Exemplo dessa interpretação tradicional pode ser vista em: NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p 84.
[13] POYTHRESS, Vern S. Teologia Sinfônica: A Validade das Múltiplas Perspectivas em Teologia. 1 ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 2016. p 86. 
[14]Cabe observar que o livro de Pouthress é um grande auxílio nesse debate, especialmente pelas doze máximas do capítulo sete. O autor magistralmente mostra o perigo de tomar uma parte como o todo na leitura das Escrituras.

4 comentários:

Vitor Germano Oliveira disse...

O problema da questão do batismo no Espírito Santo é que a experiência de línguas estranhas nem sempre acompanha pessoas que nitidamente possuem o fogo ardente de Deus em seus corações.Para usar um exemplo atual, cito o exemplo do pregador bíblico e ortodoxo, Hernandes Dias Lopes, que apesar de não ser cessacionista confesso , não entende o batismo como uma experiência de línguas estranhas.
No caso dele , e de muitos outros , eu entendo que estas pessoas receberam o batismo, estão cheias do fogo e do poder de DEus, ainda que não reconheçam exegeticamente como nós , esta doutrina.Mas , pelo fato de nunca terem experimentado o falar em línguas estariam portanto sem o devido batismo, segundo nosso engessamento doutrinário impõe.

De fato, eu sei que muitos que falam "línguas " são tão carnais que nem podem se dizer regenerados, quando mais batizados com o fogo do Espírito.
Está na hora de este ponto específico da evidência inicial.
Analiso , brevemente este ponto aqui, no meu blog.
http://vitorgermano.blogspot.com.br/2015/07/o-batismo-no-espirito-santo.html

Tadeu Costa disse...

todas as declarações apostólicas, dentro das narrativas de Atos, são doutrinas para todos os tempos. O livro de Atos está cheio de doutrinas:a)segunda vinda de Jesus, ressurreição, justificação pela fé, trindade, anjos, demônios, só cristo salva, batismo nas águas, santa ceia, oração e Batismo no Espírito Santo. Nos evangelhos, conhecemos o Redentor; Em Atos, conhecemos o Consolador. Ainda não sou batizado, mas graças a Deus pelo sinal das línguas. As línguas estão para o Batismo no Espírito assim como o Fruto está para conversão. O Batismo não é subjetivo. Tem que haver uma evidência, física/exterior (línguas). Agora, não acredito em Batismo no Espírito sem línguas ou que falou(?) em línguas só uma vez.

Eduardo Willians Bandeira de Melo disse...

Excelente artigo.

Eduardo Willians Bandeira de Melo disse...

Tomei a liberdade de republicar o artigo no meu blog (galacia.blogspot.com), mantendo os créditos. Valeu.