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domingo, 30 de outubro de 2016

A Reforma Protestante não tem dono!

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há um crescente movimento nas redes sociais onde se julga quem tem a devida legitimidade ou não de comemorar a Reforma Protestante. Alguns possuem critérios tão rígidos que até o próprio Lutero seria impedido de celebrar a data. A Reforma Protestante é um momento histórico que produziu uma nova lógica na relação do homem com Deus: a graça de Cristo voltou a ser devidamente cultivada. Logo, ela não é propriedade de um grupo. É um princípio que está além de uma denominação ou vertente teológica. O cerne do pensamento reformado certamente está em cinco expressões latinas: Sola fide (somente a fé), Sola scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola gratia (somente a graça) e Soli Deo gloria (glória somente a Deus).

Essa bandeira de “propriedade da Reforma” normalmente é levantada pelos irmãos calvinistas, logo porque o calvinismo brasileiro se apresenta no debate teológico como extremamente sectário. É raro ver por aqui um calvinista que aprecie outras tradições cristãs, mesmo primando pela sua própria tradição, como podemos contemplar em teólogos estrangeiros do calibre de Alister McGrath e James K. A. Smith.  Aliás, Smith é um raro confessional que rejeita a apropriação do termo “reformado” como sinônimo de calvinismo. Em tom de conselho Smith escreve:

Querido Jesse: O quê?! Você começou a achar que ser “calvinista” não é necessariamente sinônimo de ser “reformado”? Bem, então meu trabalho aqui já está feito. Mas você está certo, e me sinto encorajado por você ter colocado desta forma: “reformado” talvez não se reduza a “calvinismo”, nem mesmo “calvinismo” se reduza a soteriologia ou a uma fixação na TULIP. Tampouco “reformado” pode ser compreendido numa única doutrina como soberania ou eleição ou, ainda, a glória de Deus. Aliás, espero que você tenha percebido que não pretendo resumir o calvinismo ou a tradição reformada a algum ponto específico, doutrina ou ideia. Venho tentando enfatizar que a Reforma — e, por isso, a tradição reformada — foi um amplo e complexo movimento de renovo que teve implicações não apenas para a doutrina da salvação, mas também para a eclesiologia, para a adoração, para o discipulado, e até mesmo para um engajamento cultural no mundo e para o mundo. Calvinismo é menos parecido com uma roda presa a apenas um eixo e mais semelhante a um jardim cuidado por um Jardineiro que deseja ver milhares de flores desabrochando. Não é uma doutrina fundamental, mas uma visão ampla.[1]

Mas o pentecostalismo pode ser visto como uma derivação da Reforma de Lutero? É claro que sim. O pentecostalismo surge no seio do protestantismo anglo-saxão e não no catolicismo romano ou ortodoxo e, observem bem, isso não é à toa. O protestantismo permitiu cada semente do pentecostalismo. Aliás, o pentecostalismo é um reavivamento da “descoberta protestante”, para usar uma expressão do historiador Richard Stauffer. Alguns elementos importantes como a oposição à escolástica, a autoridade da Bíblia, o sacerdócio universal de todos os crentes, a crítica ao magistério e a rejeição dos sacramentos estão bem presentes do início e no desenvolvimento do pentecostalismo.

Penso que existe apenas no fundamentalismo atrasado de certo calvinismo nacional a discussão se o pentecostalismo é ou não filho da Reforma. E talvez entre alguns norte-americanos também. Enquanto isso, o teólogo Alister McGrath não tem dificuldade de definir o pentecostalismo como uma continuidade da Reforma. McGrath escreve:

O pentecostalismo deve ser entendido como parte de um processo protestante de reflexão, reconsideração e regeneração. Ele não é consequência de uma “nova Reforma”, mas o resultado legítimo do programa contínuo que caracteriza e define o protestantismo desde seu início. O pentecostalismo, como a maioria dos outros movimentos do protestantismo, fundamenta-se no que aconteceu antes. Seu igualitarismo espiritual é claramente a redescoberta e a reafirmação da doutrina protestante clássica do “sacerdócio de todos os crentes”. Sua ênfase na importância da experiência e na necessidade de transformação remonta ao pietismo anterior, em especial, como desenvolvido na tradição de santidade. Contudo, o pentecostalismo uniu e casou essas percepções em sua própria percepção distintiva da vida cristã e de como Deus é encontrado e anunciado. Ele oferece um novo paradigma de autoexpressão para o protestantismo, antes, considerado marginal e levemente excêntrico pelos crentes da corrente principal; cem anos depois, o pentecostalismo, cada vez mais, passa, ele mesmo, a definir e a determinar essa mesma corrente principal. [2]

Como pentecostais somos filhos da Reforma de Lutero. Sem o "princípio protestante", para usar a famosa expressão de Paul Tillich, o pentecostalismo seria simplesmente impossível. Mas também somos filhos do pietismo de Philip Jakob Spener, do puritanismo de Jonathan Edwards, do wesleyanismo de John Wesley, do mileniarismo de John Nelson Darby, do biblicismo conservador da Aliança Evangélica, da missiologia de Albert Benjamin Simpson, etc. Somos a soma de várias tradições e, consequentemente, podemos celebrar a Reforma com entusiasmo. A Reforma não tem dono porque ninguém pode registrar um avivamento divino em algum cartório como sua propriedade exclusiva. Ou será que esqueceram que o protestantismo não tem papa - seja humano ou institucional? Somente a Deus a glória!







[1] SMITH, James K. A. Cartas a um Jovem Calvinista. 1 ed. Brasília: Monergismo, 2014. p 119, 120.
[2] McGRATH, Alister. A Revolução Protestante. 1 ed. Brasília: Editora Palavra, 2012. p 428.

3 comentários:

Arthur Olinto disse...

http://fabiosalgado.blogspot.com.br/2016/10/sobre-as-doentias-comemoracoes-no-dia.html

Márcio de Araújo disse...

Recentemente eu tive um debate no face com um irmão calvinista que acha ridículo que neopentecostais comemorem a reforma, apesar dos erros doutrinários acho que até mesmo eles tem ligação com esse movimento.

Anônimo disse...

Com todo respeito aos irmãos calvinistas, mas é no mínimo prepotência achar que a Reforma Protestante é de propriedade do calvinismo ou das igrejas reformadas.