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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Você é um cristão ateu?

Por Gutierres Fernandes Siqueira

Há poucos meses uma pastora da Igreja Unida do Canadá anunciou que não acredita em Deus. Mas, apesar da confissão cética, a reverenda Gretta Vosper permanece como membro da igreja canadense. Estranho, não é verdade? Todavia, não é nenhuma novidade. Na década de 1960 já existia nos Estados Unidos um forte movimento chamado “Deus está morto” que tinha como expoentes os teólogos Thomas Altizer (1927 -), Paul van Buren (1924 - 1998), William Hamilton (1924 –2012) e Gabriel Vahanian (1927- 2012). O mais proeminente nome até os nossos dias dessa teologia é, no entanto, o professor aposentado de Havard e teólogo Harvey Cox (1929-), ainda que ele nunca tenha reivindicado o pertencimento ao grupo. O movimento ficou conhecido como Teologia Radical e contou com a simpatia de teólogos liberais como Rudolf Bultmann (1884 – 1976) e Paul Tillich (1986- 1965)[1].

Embora não fosse um grupo homogêneo nem no entendimento do que seria essa tal “morte de Deus”, esses teólogos primavam pela apresentação de um cristianismo secularizado, ou seja, que falasse a língua do homem desencantado e desprovido de espiritualidade. Por exemplo, William Hughes Hamilton dizia que o teólogo contemporâneo não possui nem fé nem esperança, mas, no entanto, restava a ele o amor. A missão do homem moderno, segundo Hamilton, seria imitar Jesus em atitudes de compaixão, pois a “salvação” estava nas manifestações de caridade para com o próximo. O amor não só “vence” como “salva” na teologia negativista de Hamilton. Esse teólogo, apesar de sua vasta erudição, só não entendeu o que os mais simples cristãos já tinham entendido: não é possível um amor verdadeiro desprovido de fé e esperança. As três virtudes teologais (1 Coríntios 13. 13) são inseparáveis, ainda que o amor seja a principal delas. O amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Coríntios 13.7) só pode ser realmente sustentável juntamente com a esperança e a fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Só mesmo quem acredita que “Deus está morto” é capaz de produzir uma teologia tão manca.



A Teologia da Morte de Deus se apresenta também como uma variante da Teologia da Libertação. Na teoria, essa crítica teológica se propõe a revolucionar o mundo diante das estruturas de injustiça social e inércia dos homens religiosos. Todavia, esse “humanismo cristão” não se comunica com o homem comum. Esse tipo de teologia é a típica reflexão advinda de ambientes prósperos. Todos esses teólogos estudaram ou lecionaram em universidades de ponta. Jamais uma “teologia da morte de Deus” nasceria na periferia do mundo entre os crentes mais pobres da nossa época. É uma teologia provinciana, por assim dizer, porque tal desejo de mergulho no mais profundo secularismo moderno não é compartilhado pelo homem religioso das vilas e favelas ou dos campos e florestas. O desencantamento do mundo nunca foi expresso pelos mais pobres, mas muito pelo contrário, os mais desvalidos continuam em busca do encanto, da magia, das superstições e das religiões institucionalizadas ou não.  

Ao mesmo tempo em que uma teologia que propõe a morte de Deus é um absurdo lógico, bíblico e eclesiástico, também é necessário afirmar que nem sempre a negação de Deus é um processo intelectual. O Deus da Bíblia é - como certa vez afirmou Dietrich Bonhoeffer- um Deus “se deixa empurrar para fora do mundo”[2]. Ou seja, Deus, em sua soberania, permite que o homem busque o seu próprio espaço ao ponto do Senhor entregá-lo “às concupiscências do seu coração” (Romanos 1.24). É como se o Todo-Poderoso dissesse: “ok, viva a sua vida, se é assim que você deseja!”. Outro exemplo eloquente está no profeta Oseias, pois Yahweh informa a Israel sobre um pesado juízo: “Não sois o meu povo e eu não existo para vós” (Oseias 1. 9 TEB). O pecado de Israel era tamanho que ainda que houvesse uma profissão cúltica de fé, simplesmente Deus já não mais existia entre eles.

O homem aprofundado no pecado é um ateu prático. Ele não diz que “Deus não existe” ou “que Deus está morto”, mas vive como se essa fosse a verdadeira realidade. Quando Deus não faz nenhuma diferença na nossa vida vivemos um ateísmo real. Quando dizemos que somos cristãos e não oramos; ou quando dizemos que cremos em Deus, mas não na Igreja; ou ainda quando dizemos que Deus existe, mas da “minha vida cuido eu” etc., ora, tudo isso manifesta do nosso ateísmo factual. Quando cremos realmente em Deus isso reflete em nosso dia a dia obrigatoriamente. Viver vivenciando Deus é viver “sob a realidade da verdade que não é nosso produto, mas nossa soberana. [É] viver sob a direção da justiça que não só pensamos, mas que é poder e nos determina a nós mesmos. [É] viver sob a responsabilidade do amor que espera por nós e nos ama. [É] viver sob a exigência da eternidade...”, como escreveu Joseph Ratzinger[3].




[1] Altizer, por exemplo, foi aluno de Tillich.
[2] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e Submissão. 1 ed. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2003. p 488.
[3] RATZINGER, Joseph. Dogma e Anúncio. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008. p 386.

Um comentário:

Sidnei disse...

O numero de "Cristãos Ateus" tem crescido muito nos últimos tempos e alguns são conhecidos, inclusive, como mestres.